Camila Barp

Quando criança, armava-se do velho chicote que fora de seu falecido avô e marchava confiante pelo potreiro cheio de vacas. Sentia-se plenamente protegida na presença daquele objeto e sabia que, se necessário fosse, teria força e habilidade para defender-se.

Qualquer potro ou boi desmontaria o corpinho infantil sem esforço. Fora uma criança pequena e muito magra, seus ossos eram vagarosos no crescimento. Mas munida daquele poderoso amuleto, flutuava pelo vasto gramado com respeito e harmonia em relação à todos os seres ruminantes dali, evitando apenas o contato com as urtigas e com o banhado ao seu lado direito.

Encaminhava-se para um lugar que poderia chegar mesmo se a cegueira apagasse o carreiro estreito. Seguia o cheiro da lama, ouvia atenta o ruído da pequena queda d’água que se escondia entre muitos galhos fartos. Era como uma caverna, cheia de flores de beijinho e folhas de um verde denso que de tanto olhar, sua córnea tingiu de leve sobre o azul que era. 

As pedrinhas já tinham sido há muito tempo moldadas pela água, eram arredondadas e limosas, mas sabendo onde pisar, nunca machucara seu pezinho. Atravessava a pequena sanga e colocava as mãos minúsculas no barro, que por vezes cheirava a peixe. Cantarolava alguma canção inventada, sujava sem querer a calça velha que já não cabia mais em sua irmã maior e tampouco era apropriada a seu tamanho, sentia o silêncio materno daquele pequeno paraíso e ao primeiro voo de borboleta ou movimento de aranha, saía de lá com pressa e medo de ser descoberta.



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